quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Humanidade

“Humanitas precisa comer...” (Quincas Borba)

Imperdoável é o erro cometido uma vez, se aquele que erra está propenso a acertar mais do que aquele que julga.

Pode-se tornar-se pessoa completa e perfeita, desde que às custas da intolerância a quem se é mais consciente de sua própria incompletude.


(Gérson Elias Rachid de Góes)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sempre sobre a vida!

As bailarinas de Friederich

- Há bilhões de anos uma enorme explosão dava origem a astros brilhantes, planetas complexos, estrelas luminosas, sistemas organizados. Há milhares de anos contam-se histórias de arco-íris saindo de bocas, de palavras criadoras, de objetos navegando em infinitas águas tranquilas e sobre o nosso planeta plano. São inúmeras histórias, nenhuma, entretanto, me coloca diante de uma explicação razoável para o surgimento da luz e do brilho das estrelas e também dos animais luminosos. Sinto grande atração pela mitologia hindu, mas por sua beleza narrativa e não por seus aspectos morais e éticos, muito menos os científicos. Tudo o que sei é que na busca pela verdade encontro apenas mais e mais incerteza, então “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”. Estão dispensados. – Terminava sua aula o professor mais antigo da instituição e cansado ajuntava suas coisas, uma menina, uma bela moça, com seus vigorosos dezessete anos, aproximou-se do docente e sem autorização deu-lhe um beijo na face. Entregou-lhe um panfleto, o professor estranhou, em infinitos três segundos pensou na sua postura ética sempre usada, pensou na liberdade que nunca houvera dado, no seu imensurável conceito na instituição e o que esse gesto poderia acarretar diante das pessoas que nunca se aproximaram dele por um medo reverente, mas acatou calado, dizendo apenas “até a próxima aula”. Seus olhos quase estavam fechando de sono e de seus lábios as palavras saíram num tom mais que monótono, quase num tom de quem falara dormindo, a menina sabia do cansaço de seu mestre, o que a motivara a prestar-lhe tal homenagem e o que tornava o gesto impossível de arrependimentos, foi para casa em silêncio, mas satisfeita, cumprira sua missão.
Friederich finalmente chegava à sua casa, apenas três degraus para subir, abriu a porta, limpou os pés no pano de chão, disse olá esperando que alguém escutasse, ao mesmo tempo em que sabia que seria impossível, largou suas coisas no chão da sala e sentou-se no maior sofá do ambiente, fechou os olhos e apertou botões dos controles, que sabia, estava logo ali ao seu lado. Brahms ecoava no cômodo silencioso e Friederich navegava nas águas oníricas de seu inconsciente.

***

Num grande templo hindu uma flor de lótus se abria sobre as águas verdejantes e tranquilas de um lago de extensão imperceptível. O sol sobre o templo, o lago e o homem era tênue, manso e suave, sua luz era tranquilizadora, aquele cenário era, porque poderia ser, perfeito. Não havia nada que pudesse perturbar, tirar a paz ou atormentar, tudo estava exatamente como deveria estar, da melhor maneira possível.
Um pássaro de belo canto revoava sobre a cabeça de Friederich, até decidir pousar sobre um arbusto repleto de flores amarelas, aquele pássaro era mitológico, era melhor que a fênix, pois não remetia a fogo, era melhor que o rouxinol do imperador, pois não lembrava nada real e era melhor do que tudo o que existia, pois existia apenas inconscientemente.
No lago, peixes dançavam alegremente à melodia cantada pelo pássaro, peixes de todas as cores, peixes brilhantes, peixes que traziam luzes em suas escamas, peixes magníficos.
Friederich entra no templo e lê pergaminhos e mais pergaminhos deixados lá, não encontra nenhuma dificuldade na tradução de seus signos, todos lhes são revelados, as narrativas encontradas ali são legítimas, originais, perfeitas e nunca, nunca antes conhecidas – espaço para a realidade, infeliz essencial: ele tem de admitir que, em seus estudos, jamais havia encontrado algo novo, o que torna esses escritos preciosos, na mesma proporção em que são dissipadores de algo tomado como verdade por muito tempo – essas histórias levam o leitor a navegar entre galáxias, estrelas, luzes e arcos-íris siderais, o templo se tornou uma minúscula partícula indefinida, o que importa agora é muito maior, é muito mais importante, são os lugares desconhecidos do universos, são os planetas terras inexplorados, são os martes com vida, são os sóis verdes e azuis.
Uma maravilhosa sensação situa Friederich novamente no templo, é algo úmido, gélido, mas magnífico, uma sensação tátil. Ele está, agora, próximo de uma bela ruiva, uma linda bailarina, jovem e simpática, ele desperta.

***

Diante dele está Beatriz, sua grande paixão, hoje já não é mais tão jovem, mas o amor que Friederich sente por ela ainda é o mesmo... em infinitos dois segundos... lembra-se de seus primeiros gestos de afeto:

***

Após o acender de luzes, um Friederich de quatorze anos pisca para uma bailarina ruivinha de doze anos no palco, ela ajeita seus bastos cabelos, prende-os graciosamente sob um charmoso coque, claro que depois de jogá-los para lá e para cá, um sorriso discreto sai de seus finos e vermelhos lábios e seus olhos verdes piscam aleatoriamente e involuntariamente, num imensurável charme infantil. De repente, Friederich leva Beatriz para o ginásio em sua bicicleta vermelha, à moda de “A vida é bela”, agora para a faculdade de moto, depois para o trabalho de Siena prata.

***

Friederich recebe muito bem o beijo amoroso dos lábios que o despertou. Pega o panfleto de seu bolso:
- Vamos ver uma apresentação de balé na Igreja Cristã de São Matheus? – Beatriz animadíssima arruma-se e após três horas ambos saem, o coração de Friederich já não é mais o mesmo, percebe-se velho e passível de sentimentos, seus discursos de “Carpe Diem” aos poucos são esquecidos e o que resta, agora, é uma lacuna intelectual, que precisa urgentemente ser preenchida por pergaminhos antigos com informações novas, nada poderia fazer Beatriz mais feliz.


Paulo Augustus

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Para uma Pessoa Especial

Jota Gê

O céu fica escuro lá fora e uma forte garoa rompe o silêncio e a sequidão.

***

- Tive um sonho. Estranho como todos os outros, em alguns momentos belo, tenebroso, pesaroso, complexo e paradoxal. Como todos os outros. No começo, eu me vejo sentado em uma poltrona reclinável de couro preto, como a que tenho em minha sala, a seguir a poltrona começa a flutuar a uns doze centímetros do chão, depois uns vinte e por fim uns cinquenta e três. Flutuando, ela me leva a um campo florido, vejo lírios de várias cores, margaridas brancas e amarelas também, mini-rosas vermelhas, brancas e rosas rosas e vejo lantanas, éricas, onze horas e dentes de leão. Em um lugar aonde a relva é baixa, limpa e sem flores, a poltrona pousa. Uma manada de cavalos, brancos, pretos e malhados, passam correndo do norte para o sul aos lados do acento, em determinado momento, lá no sul, às minhas costas, uma nuvem pousa no solo, fazendo uma rampa pela qual os animais sobem, leves como o vento. Tudo fica escuro e trovões começam a ribombar nos quatro cantos da terra, de repente, os trovões formam uma orquestra com os tímpanos e tambores de Beethoven, Mozart e Bach, os céus ainda escuros começam a se mover no ritmo das sinfonias e uma horda de corvos e borboletas negras que estava grudada no céu começa a fazer rasantes, o que fez parecer que o céu se mexia. Todos esses animais pousam nos meus pés, mas o céu continua escuro e em movimento.
A poltrona começa a girar frenética e se transmuta para uma enorme pensão, eu estou do lado de fora do casarão, tudo nele é feito de madeira, totalmente escura como o ébano, a casa é quase completamente negra a não ser pelos inúmeros vidros que formam as janelas e os detalhes decorativos da fachada em branco ou verde, abro a porta frontal e entro, deparo-me com uma imensa piscina, pulo na água gélida e mergulho, uma gigantesca baleia, um Kraken, me carrega água abaixo e me aporta à entrada de uma caverna, o sol brilha a cegar vista, entro no ambiente, vejo um baú de ouro fino, cravejado por esmeraldas e águas marinhas, ao abrir o baú maior, encontro um pequeno, uma caixinha de madeira envelhecida, quase apodrecida, quando abro a caixinha e estou, de repente, sentado na minha poltrona em casa e você me serve, em uma bandeja, biscoitos caseiros de baunilha e um café fumegante. – Ela olha-o nos olhos, com os olhares entrecruzados por um minuto ou mais, um beijo se é dado num jogo interior de emoções e sensações.

***

Wagner desperta incerto, três da manhã e a solidão. Demasiado emocionado respira ofegante. Abre a janela, nenhum movimento na rua lá em baixo, Órion saúda-lhe brilhante.








Paulo Augustus





Esse conto foi criado para, e inspirado em, uma pessoa muito legal, que tem se mostrado sincera, otimista e uma pessoa completa e satisfeita consigo! A Você!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

De brincadeiras com palavras e nomes:

Amandas

Amandas de verde,
                        de azul,
            de amarelo,
                            de preto,
     de rosa choque.

Amandas sorrindo,
            cantando,
correndo,
       brincando,
lendo.

Amandas alegres,
            simpáticas,
   empáticas,
            generosas,
sinceras.

Amandas de vários tamanhos,
            de vários jeitos,
     de todos os tipos,
estilos,
       de todos os gostos.

Quem não tem uma Amanda,
            ou jamais teve?
Todos temos ou tivemos,
            ou já avistamos,
                        afinal são Amandas.


Gérson Elias R. de Góes


terça-feira, 28 de outubro de 2014

À Vida

Ensaio sobre a vida

São infinitos os ensaios e as tentativas que almejam
Explicar o insondável inescrutável imensurável
Mistério que cerca e rodeia a origem da vida

Floresce, fecunda, forma, transforma
Rebenta, rompe, cresce, aparece
Novas formas vivas vingando paradoxalmente inanimando
Inanimando na mesma proporção
Em que sutilmente crescem

Talvez um sopro, suspiro, sucinto, suave exale
A vida contida em indescritíveis minúsculas partículas novas
Talvez de um sopro suave e sucinto
Suscite o sonoro sentido de ser
Sutilmente extinto

Infinitos mistério rodeiam e cercam e orbitam
O núcleo esférico celular atômico particular
Da presença singular do coletivo respirar de vida
Subjetiva e inquestionável, pensada finita

O que se faz
O que se fala
O que se almeja
Como se explica
Como se aplica
Como se afirma
O sentido
Ou os sentidos
Da vida?

A vida floresce
Cresce
Fecunda
Rebenta e rompe
Os limites impostos
Pelos mitos produzidos da incerteza
Do ser e do existir

O que se sabe
É que se cresce na mesma proporção em que se esmorece

E se nada do que rompe morre
Antes tudo o que se forma se transforma
O que se faz do que se vai?
Almeja-se e aguarda
Ou se preserva a mágoa
Da incerteza de vir a existir no porvir?

Muitos outrora perguntaram
E outros virão a questionar
Todos de alguma forma
Querem entender e poder explicar
O mistério infinito, imensurável e inescrutável
Da origem, do surgimento
Daquilo que sem explicação e sem mediação
Recebe o nome, o jargão
De vida em sanção

O que se tem e o que se sabe
É pouco e limitado
Todo mito tem origem no fato

O universo, se flutua,
Navega em palavras
Nada, vazio, vago
Explosão, exalação, emanação
Órbitas, galáxias, estrelas
Brilham, alumiam
No pretérito do futuro

Aquilo que aquece
Miscigena e difunde
Floresce, cresce, aparece,
Rompe os limites dos mitos
Daquilo que se busca entender

Rebenta, rompe, quebra, flora e floresce
Nasce, cresce, cria, aumenta e multiplica
Nova vida faz e faço e fazemos
Nasce, cresce e rompe
Floresce fecunda nova

São imensuráveis, inescrutáveis, insondáveis
As profundezas dos mistérios da vida
Do vazio vago abissal
Um suspiro sutil, um singelo sopro
Fazer surgir seres que se reconhecem sendo
Crescentes na mesma proporção em que são seres em constante extinção

Uma sinfonia, uma sonata, um sentimento
Inexplicável sensação de ser, fazer, crescer e... transformar-se
No imenso universo composto
De singelos, sucintos, simples, suspiros, sopros, suaves, seres, serenos, sublimes...
Brilhos, luzes, vagas, plataformas rasas, planas,
água,  fogo, ar, terra e plantas

Planos, sonhos, imagens, artes, musicas e palavras
Vida em seu misterioso modo de se fazer ser
Sempre sublime suprema e imensurável plenitude

Virtude, vicissitudes,
verdade e mito na mesma proporção
Ser, crescer, fazer,
Na mesma medida

Transforma e volta
Floresce, fecunda, forma e transforma e acaba
Na mesma medida em que volta



 Assinado por:

Zacharias Rhangel de Saint’Zadckiel



Em se tratando de Brasil, ficaria complicado dizer "após um longo e tenebroso inverno...", haja vista que no Brasil o inverno não é tão frio, não é tão longo e nem tampouco é tenebroso, o que nos permite realizar perfeitamente qualquer tarefa, assim sendo... após alguma ausência produzi estes versos ao ler sobre o Simbolismo em Portugal, representado por Eugênio de Castro e também ao ouvir "O Pássaro de Fogo e Sagração da Primavera" de Igor Stravinsky... é claro que a animação da Disney "Fantasia 2000" relacionada à primeira música mencionada, tem mais influência na escolha do tema, todavia... é a música que me inspirou. Estes versos pretendem ser Simbolistas... assim como o poeta que o escreveu!

Nota: É evidente que o título "Ensaio..." é empregado poeticamente... haja vista que não sou nenhum filósofo!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sobre as manifestações e o Cristianismo

Sobre as manifestações e o cristianismo

Quando Jesus foi interrogado sobre os impostos ele afirmou veementemente que se deve dar ao governo o que ao governo pertence e a Deus o que é próprio de Deus. (Mt. 22: 15 – 22; Mc. 12: 13 – 17; Lc. 20: 20 – 26)
Quando a Pedro foi revelado pelo Espírito Santo que Jesus é O Escolhido do Pai, por Jesus foi revelado aos seus discípulos o processo de sofrimento pelo qual deveria passar. (Mt. 16: 13 – 28; Mc. 8: 27 – 31; Lc. 9: 18 – 27)
Quando as Escrituras se cumpriram e Jesus foi levado preso pelos soldados romanos alguns dos discípulos quiseram que Jesus fizesse algo, Jesus não o fez. (Mt. 26: 47 – 56; Mc. 14: 43 – 50; Lc. 22: 47 – 53; Jo. 18: 1 – 11)
Existe um fator em comum em todas essas situações, em todas elas Jesus enfatizou a Vinda do Reino de Deus, a chegada do Reino dos Céus, o Final desse sistema de coisas.
Se me perguntarem:
- Você é contra as manifestações?
Respondo:
- Não!
Se me perguntarem:
- Você está satisfeito com o nosso governo?
Respondo:
-Não!
Se me perguntarem:
- Você participaria das manifestações?
Respondo:
- Não!
As manifestações demonstram o grau de insatisfação do povo em relação aos representantes do mesmo povo, representantes que se omitem e se esquecem das suas verdadeiras responsabilidades. Partilho da mesma busca por justiça plena. Mas, utopia por utopia, fico com a espera pacífica e justa da única utopia que se perpetuará a ponto de nunca deixar de ser utopia na mesma medida em que não carecerá de outra utopia.
Se me perguntarem:
- Você ainda aguarda o Reino dos céus?
Eu direi incansavelmente:
- Sim! Pacificamente!




Gostaria de poder dizer que a pessoalidade com que este texto foi produzido é fruto de um grau elevado de formação e conhecimento, lamento dizer que é o extremo oposto disso.




Gérson Elias Rachid de Góes.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Inspirações e Devaneios

De mim mesmo:

Lá estava eu, andando, como sempre, refletindo sobre a vida e o mundo, reparei:
Como é complexo e belo o sistema de organização desse planeta, chega a ser, na verdade, tenebroso. Mas, ainda assim, belo.
Uns dão-se por completo e são devorados.
Outros andam sozinhos e solitários, querendo dar-se sem ter quem os queiram.
Outros se dão e de nada são aproveitados.

Quem entenderá este sistema e quem o explicará?

Mortais criaturas somos, essa é a beleza e a razão da vida: o seu fim.
Quem entenderá?







Gérson Elias Rachid de Góes

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sara

São quatro e meia da manhã, na estação o clima está frio e o lugar coberto por névoa, desde os trilhos até o topo do mundo. Hoje ela acordou mais cedo do que nunca, às quatro já estava de pé, determinada.
Sara chorava sentada no banco, esperando o trem, sua partida era mais difícil do que imaginara.
Ela queria sair, conhecer outros lugares, queria viajar, descobrir, encontrar, mas não o faria por consentimento, nem por ter a confiança de alguém, teria de fazê-lo de modo inesperado, desordenado, inusitado, até mesmo rebelde, mas teria de fazer e fez. Lá estava, quatro e meia, sem malas, sem avisos, sem prévias, estava lá e o trem já apontava no horizonte e apitava seu chegar.
Sara se levantou do banco, preparando-se para adentrar o trem, ouve ao longe uma voz familiar: “Sara, que o Senhor te acompanhe e vê se me manda notícias”. Olha para trás e reconhece a silhueta do seu velho, compreensivo e amado pai; entende o recado e é nessa parte que chora mais.
O trem está vazio, perfeito para a leitura dos livros que trouxe consigo, seus únicos acompanhantes.
São três: “O retrato de Dorian Gray”; “David Coperfield” e “Os miseráveis”.
Sara abre o “Retrato de Dorian Gray” e torna a ler a partir do capítulo em que havia parado, ou melhor, tenta ler: Dorian viaja pelo mundo e começa a colecionar instrumentos de muitas épocas e lugares.
Por mais que tenha sido difícil e lágrimas rolem por seu rosto, Sara sente-se realizada, está fazendo o que sempre sonhou e esta parte do livro a motiva ainda mais.
Peter, seu pai, ao despedir-se dela na estação, mesmo à distância, reforça a mensagem com a qual sempre a repreendera: “Não será fácil, você vai sozinha, terá que se sustentar sozinha e nos momentos mais difíceis de dor não haverá quem a console, não te autorizo a partir, mas se realmente quiser ir quem te impedirá?”.
Passam-se três estações, mas do livro, apenas três linhas, as lágrimas em seus olhos e a confusão de pensamentos em sua cabeça são fatores que muito corroboram para que não leia.
Tenta contentar-se por partir, mas a cada estação fica mais difícil, não se arrepende de ter saído, mas não consegue entender tudo ao certo.
Divaga de repente em algumas lembranças, seu pensamento vai de sua primeira Barbie até agora, naquele trem, sentido “fim do mundo”.
(...) “Fim do mundo”... Lembra-se de “As Crônicas de Nárnia”: “O princípio do Fim do Mundo” e “Maravilhas do Mar Derradeiro”.
Deveria ter trazido o livro, sente que esse é o que mais lhe fará falta, assim que passar por uma livraria o comprará, comprará também uma bíblia; por que não trouxe a sua? Deveria ter trazido. Por que saiu daquele jeito? Apressadamente e às escuras. Deveria ter planejado melhor essa saída que sempre fora tão almejada. Mas agora já está na rua e tudo o que tem de fazer é aproveitar o momento, mas por que não consegue, por que essas lágrimas insistem em cair?
“Estação terminal...”
“Malditas lágrimas, parem de cair!” – Pensa, e se dá conta, sozinha.
Vê um mendigo. Dá-lhe uns trocados e continua chorando. Entra no ônibus, não sabe bem ao certo qual, mas tem a certeza que é aquele que tem de pegar. E vai.







Pretendo continuar esse conto! Mas, decidi divulgá-lo mesmo sem concluí-lo!

Paulo Augustus.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Romance para nós.

Um dia!

Lá estavam eles, sorridentes, debaixo do sol tropical, tomando seus sorvetes mistos de creme com chocolate. Peter e Karmen, dois idosos no parque Ibirapuera.
Peter olhava para os patos no lago e para os olhos de seu amor mais recente. Mal podia acreditar que aos quarenta e cinco do segundo tempo de sua vida encontraria alguém com quem pudesse compartilhar seus segredos e desejos, mas ali estava, Karmen, excelsa para ele, bela, perfeita e quase soberana, não sabia nem como elogiá-la, não sabia como agradá-la, mas sabia que tentaria, tentaria nem que isso fizesse com que ele perdesse todas as suas energias, que já não eram tantas.
Primeiro pensou e decidiu ser sincero, depois falou:
- Karmen, já faz muito tempo que não me relaciono, não sei mais como agradar uma mulher, como elogiá-la, mas sei que tenho que fazê-lo, Karmen, nos conhecemos há três semanas, isso não é um mês, mas já estou aficionado por você, não consigo mais pensar meus dias, que já não são muitos, sem você. Você é tudo que eu quero. Quer casar comigo? – Ele espera a resposta, apreensivo, temeroso, ansioso, mas espera. Suas mãos tremem, suas pernas falham, de seus olhos parece que vão escorrer lágrimas, ele espera.
Karmen fita profundamente os olhos de Peter, sorri singela, mas não responde, lambe o sorvete mais um pouco, faz um suspense, um drama e um terror, move os olhos momentaneamente para o outro lado, para baixo, para o sorvete e olha novamente para Peter:
- Seus filhos vão me matar. – E sorri.
Peter não entende completamente a resposta, isso é um sim ou um não? Não sabe ao certo, mas essa alegria, esse jeito de ser da Karmen, esse suspense todo, é isso que ele quer, ela continua:
- Mas é claro que sim! Vamos morar aonde? No meu ou no seu apartamento?
- Por que não vendemos os dois e compramos uma casa? O que acha?
- É uma ótima opção! – Olha para o céu, torna para Peter e muda de assunto. – Vou ter que parar de dar aula para seus filhos, eles nunca mais me respeitarão.
- Deixa disso Karmen, eles te amam e são tão aficionados por você quanto eu.
- Você diz isso porque não é você que tem de falar aos seus alunos mais dedicados que depois de uma reunião de pais e mestres começou a sair com o pai deles e que agora vão se casar! – Diz Karmen, como quem quer dificultar as coisas, com um sorriso discreto de canto da boca.
- Essa é a parte mais fácil, garanto que muito mais fácil do que corrigir uma série de exercícios com letra ilegível. – Com ares de quem encontra qualquer outra dificuldade, menos a mencionada.
- Isso com certeza. – É obrigada a concordar, com outro sorriso.

***

Passam-se três ou quatro estações.
Sob um sol tímido e ao lado de um lago gélido dois caixões são homenageados, os patos cantavam junto com o coral Assembleiano; os corpos sorridentes e completamente imóveis ficavam na lembrança.
Nunca houve nem haverá casal mais feliz do que dois jovens na terceira idade que se descobrem feitos um para o outro apesar do tempo em que eram preenchidos por outras pessoas também perfeitas.





Gérson Elias Rachid de Góes.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Inspirações e Devaneios

Éden.

Andavam nus no Jardim,
Adão e Eva,
Mas veio-lhes pelada Serpente,
Contando casos de fazer querer crescer.
Cochichou, Cochichou...
A Eva Cochilou no ponto
Comeu da Fruta
E cá estamos nós
No Sol Tropical de quarenta graus

Vestidos!








Zacharias Rhangel de Saint'zadckiel

Fragmentos


Fragmentos II

                  



Sorri
           Sonolenta
                 Suave
e   Serêêêêêêna...

Criança!





Gérson Elias R. de Góes

segunda-feira, 10 de março de 2014

Devaneios

Desinspirações.

Às vezes tento escrever,
Mas me faltam palavras.

Às vezes tento compor
Um poema ou um capítulo,
Um cenário ou um personagem,
Mas me faltam estruturas sintáticas e morfológicas,
Não ham os léxicos que careço.

Parece que o dicionário
Se torna relativo e incompleto
Pois as palavras não significam o que deveriam significar
E não soam como deveriam soar

Pergunto-me o que fazer,
Então paro de escrever.










Gérson Elias R. de Góes

quarta-feira, 5 de março de 2014

Fragmentos

Fragmentos

  Suspira
Singela
  Sucinta
Sincera

         Cora
Chora
        Corre
Chama

    Teme
Toma
     Tênue
Torna








Gérson Elias R. de Góes

Elizabeth

Elizabeth
A lua ia alta no céu, Elizabeth observava calada. Passaram-se segundos, minutos e horas, a lua foi encoberta por um denso cobertor de nuvens negras e ela continuava lá, observando, as vezes em pé, as vezes sentada e as vezes deitada no chão, mas lá, observando.
Uma, duas, três e mais lágrimas escorreram e escorriam de seus olhos sobre sua face, o mundo girava, naquele momento, ao seu redor. Em seu interior sabia que deveria entrar para casa, que logo começaria a chover e amanheceria, mas recusou-se, ficou lá, estagnada, como antes e posteriormente, por muito tempo. Não fazia ideia de quanto tempo já havia passado ali, sabia que já era madrugada, e te confesso amigo leitor, já era três da madrugada e mais alguns minutos. Continuava lá; as primeiras gotas da chuva prometida começaram a despencar do céu, Elizabeth começou a sentir frio, mas permaneceu lá, pouco a pouco ficava molhada, seus cabelos negros e cacheados destilavam perfume, ensopados com a límpida água. A camiseta que levava no corpo ficava encharcada e não bastasse, era de algodão, ficando transparente por causa do fenômeno, arrancou-lha do corpo, deixando à mostra a perfeição com que fora esculpida, seu busto estava nu e não havia problema algum, ela estava só. Conforme as gostas da chuva escorriam por seu corpo: de seus ombros, por seus pálidos e carentes seios, até a sua intimidade coberta por uma longa saia jeans, sua beleza ficava mais evidente. Lembro-me de seus lábios, também estavam alvos como seu corpo, o que se destacava naquele emaranhado de branquidão eram seus negros e profundos olhos, que não cessavam de chorar, não temia a gripe, ou a febre e nem a morte, permanecia lá, nua, chorosa e bela.
No céu, lá no alto, os anjos a observavam, queriam protegê-la, mas ela não os permitia, queriam tocá-la, despertá-la daquele torpor, mas ela não permitia, do jeito que ficara, permanecera.
Já desconhecia seu próprio nome, sua existência e até o motivo pelo qual chorava. Suas memórias eram uma confusão em sua mente, lembrou-se dum balanço de pneu numa árvore em sua infância, direto para o primeiro beijo na adolescência, uma aliança de ouro no amadurecimento, um filho na mesma época, um carro, um acidente e agora.
No céu, lá no alto, a lua se escondia daquele cenário de tristeza, o sol assumia seu posto e nessa ocasião substituía a lua. Talvez por causa do final do verão, talvez por causa da tristeza daquela manhã, o sol se recusava a brilhar, seus raios não passavam o manto escuro das nuvens e nem tampouco tinham o poder suficiente para acalentar e secar aquele corpo que aos poucos padecia no chão, nu e belo.
A chuva, numa tentativa bondosa de amenizar a dor das almas, continuava caindo, impedia que pessoas saíssem de casa para socorrer aquela madona mais que pesarosa, mas era sua companhia.
Um sino distante soou, um templo gótico anunciou o meio-dia que era enganado pela escuridão daquele cinco de abril solitário e frio, e Elizabeth deixava sua bela estátua morta no chão, enquanto ascendia aos céus, acolhida por milhões de anjos que enfim puderam-na atender.



Gérson Elias Rachid de Góes

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Inspirações e Devaneios.

O Cântico da esperança de Adão.

Do oeste volte-se para o leste e vê
Que bela será a vida que para ti
Será devolvida pelas Eternas Misericórdias.

Por cinco anos chorarás as culpas que sobre ti
Trouxera em tua tolice e ignorância.

Volte-se para o sul e para o norte e sente
Quão suave é o aroma que te conduzirá todos os teus dias
Até que de Sião venha tua Luz.

Pois um Rei será estabelecido,
Um trono será firmado e não haverá mais morte.

Olha para o alto e lembra o entardecer do início da Criação,
Pois com injustiça foste enganado e por arrogância foste privado
Dos privilégios dados por Um Rei ao teu principado.

Haverá Luz e Alegria em tua cidade
E um abrigo seguro e perpétuo ao lado do Monte Sião.

De ti e do teu lamento haverá misericórdia,
Não se emudecerá para sempre Aquele que te formou,
Aquele que te criou não se esquecerá da promessa que te fez.

Pelo amor com que te formou com as próprias mãos
Lembrar-se-á de ti no dia marcado.

Ele voltará para sua morada e residirá contigo
No trono feito para ti haverá Um Rei
E no templo o incenso nunca cessará de queimar.

Uma aliança eterna foi feita,
Uma nova promessa foi preparada.

Não haverá mais fim,
Nem morte, nem guerra,
Só Luz, graça e música.


Tudo novo fará.






Esse cântico é mais uma das minhas tentativas, desta vez, de produzir um poema religioso sobre os anseios, temores e esperanças de Adão após sua queda. Usei algumas referências que conheço e criei alguns poucos versos, espero que esteja bom, mas como um bom autor, privo-me de acreditar que está bom, afim de melhorá-lo.

O heterônimo: Zacharias Rhangel de Saint'zadckiel.
(O Israelita que tenta fugir do pecado sem que consiga)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Àqueles contos com títulos semelhantes:


Lágrimas Sangrentas.

Sentado em uma grande pedra em uma planície coberta de relva verde no alto de um monte, ele em silêncio meditava na dor que deveria carregar em seu peito, mas por algum motivo que ele desconhecia, lhe era ausente; sem que pudesse compreender não vertia nenhuma lágrima, algo o impedia de chorar penosamente como tanto queria.
Esforçou-se para lembrar o episódio que deveria causar-lhe pesar e assim talvez chorar devidamente:
***
Ela puxava seus braços com toda força que tinha, agarrava-se neles e não os soltava por nada neste mundo. Implorava, gritava e soluçava. Explicava tudo e não era compreendida.
Ela o amava, queria passar todos os dias de sua vida ao lado dele. Não via e não entendia a moral, a religião ou mesmo o Criador dos céus. Ela mesma se entregara a ele e não via nisso erro, enquanto ele insistia, exigia, impunha. Suas crenças são imutáveis, incontestáveis e imortais. Ele as manteria acima de tudo.
Ela rasgava suas roupas, roupas que já eram poucas e de certa forma deveras curtas. Ela se declarava, declamava, insistia e se despia. Ele insistia em recusar, insistia em não ver. Ela sacou do bolso da saia no chão um canivete e sem hesitar enfiou-o no próprio pescoço. Restava a ela, alguns poucos, minutos de vida, ele tentava salvá-la, ela olhava em seus olhos:
- Entreguei-me de todas as maneiras.
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Lá estava ele, sentado, lembrando-se, impassível.






(Zacharias Rhangel de Saint’Zadckiel)