As bailarinas de
Friederich
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Há bilhões de anos uma enorme explosão dava origem a astros brilhantes,
planetas complexos, estrelas luminosas, sistemas organizados. Há milhares de
anos contam-se histórias de arco-íris saindo de bocas, de palavras criadoras,
de objetos navegando em infinitas águas tranquilas e sobre o nosso planeta
plano. São inúmeras histórias, nenhuma, entretanto, me coloca diante de uma
explicação razoável para o surgimento da luz e do brilho das estrelas e também
dos animais luminosos. Sinto grande atração pela mitologia hindu, mas por sua
beleza narrativa e não por seus aspectos morais e éticos, muito menos os
científicos. Tudo o que sei é que na busca pela verdade encontro apenas mais e
mais incerteza, então “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”. Estão
dispensados. – Terminava sua aula o professor mais antigo da instituição e
cansado ajuntava suas coisas, uma menina, uma bela moça, com seus vigorosos
dezessete anos, aproximou-se do docente e sem autorização deu-lhe um beijo na
face. Entregou-lhe um panfleto, o professor estranhou, em infinitos três
segundos pensou na sua postura ética sempre usada, pensou na liberdade que
nunca houvera dado, no seu imensurável conceito na instituição e o que esse
gesto poderia acarretar diante das pessoas que nunca se aproximaram dele por um
medo reverente, mas acatou calado, dizendo apenas “até a próxima aula”. Seus
olhos quase estavam fechando de sono e de seus lábios as palavras saíram num
tom mais que monótono, quase num tom de quem falara dormindo, a menina sabia do
cansaço de seu mestre, o que a motivara a prestar-lhe tal homenagem e o que
tornava o gesto impossível de arrependimentos, foi para casa em silêncio, mas
satisfeita, cumprira sua missão.
Friederich
finalmente chegava à sua casa, apenas três degraus para subir, abriu a porta,
limpou os pés no pano de chão, disse olá esperando que alguém escutasse, ao
mesmo tempo em que sabia que seria impossível, largou suas coisas no chão da
sala e sentou-se no maior sofá do ambiente, fechou os olhos e apertou botões
dos controles, que sabia, estava logo ali ao seu lado. Brahms ecoava no cômodo
silencioso e Friederich navegava nas águas oníricas de seu inconsciente.
***
Num
grande templo hindu uma flor de lótus se abria sobre as águas verdejantes e
tranquilas de um lago de extensão imperceptível. O sol sobre o templo, o lago e
o homem era tênue, manso e suave, sua luz era tranquilizadora, aquele cenário
era, porque poderia ser, perfeito. Não havia nada que pudesse perturbar, tirar
a paz ou atormentar, tudo estava exatamente como deveria estar, da melhor
maneira possível.
Um
pássaro de belo canto revoava sobre a cabeça de Friederich, até decidir pousar
sobre um arbusto repleto de flores amarelas, aquele pássaro era mitológico, era
melhor que a fênix, pois não remetia a fogo, era melhor que o rouxinol do
imperador, pois não lembrava nada real e era melhor do que tudo o que existia,
pois existia apenas inconscientemente.
No
lago, peixes dançavam alegremente à melodia cantada pelo pássaro, peixes de
todas as cores, peixes brilhantes, peixes que traziam luzes em suas escamas,
peixes magníficos.
Friederich
entra no templo e lê pergaminhos e mais pergaminhos deixados lá, não encontra
nenhuma dificuldade na tradução de seus signos, todos lhes são revelados, as
narrativas encontradas ali são legítimas, originais, perfeitas e nunca, nunca
antes conhecidas – espaço para a realidade, infeliz essencial: ele tem de admitir
que, em seus estudos, jamais havia encontrado algo novo, o que torna esses
escritos preciosos, na mesma proporção em que são dissipadores de algo tomado
como verdade por muito tempo – essas histórias levam o leitor a navegar entre
galáxias, estrelas, luzes e arcos-íris siderais, o templo se tornou uma
minúscula partícula indefinida, o que importa agora é muito maior, é muito mais
importante, são os lugares desconhecidos do universos, são os planetas terras
inexplorados, são os martes com vida, são os sóis verdes e azuis.
Uma
maravilhosa sensação situa Friederich novamente no templo, é algo úmido,
gélido, mas magnífico, uma sensação tátil. Ele está, agora, próximo de uma bela
ruiva, uma linda bailarina, jovem e simpática, ele desperta.
***
Diante
dele está Beatriz, sua grande paixão, hoje já não é mais tão jovem, mas o amor
que Friederich sente por ela ainda é o mesmo... em infinitos dois segundos...
lembra-se de seus primeiros gestos de afeto:
***
Após
o acender de luzes, um Friederich de quatorze anos pisca para uma bailarina
ruivinha de doze anos no palco, ela ajeita seus bastos cabelos, prende-os
graciosamente sob um charmoso coque, claro que depois de jogá-los para lá e
para cá, um sorriso discreto sai de seus finos e vermelhos lábios e seus olhos
verdes piscam aleatoriamente e involuntariamente, num imensurável charme
infantil. De repente, Friederich leva Beatriz para o ginásio em sua bicicleta
vermelha, à moda de “A vida é bela”, agora para a faculdade de moto, depois
para o trabalho de Siena prata.
***
Friederich
recebe muito bem o beijo amoroso dos lábios que o despertou. Pega o panfleto de
seu bolso:
-
Vamos ver uma apresentação de balé na Igreja Cristã de São Matheus? – Beatriz
animadíssima arruma-se e após três horas ambos saem, o coração de Friederich já
não é mais o mesmo, percebe-se velho e passível de sentimentos, seus discursos
de “Carpe Diem” aos poucos são esquecidos e o que resta, agora, é uma lacuna
intelectual, que precisa urgentemente ser preenchida por pergaminhos antigos com
informações novas, nada poderia fazer Beatriz mais feliz.Paulo Augustus
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