segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sempre sobre a vida!

As bailarinas de Friederich

- Há bilhões de anos uma enorme explosão dava origem a astros brilhantes, planetas complexos, estrelas luminosas, sistemas organizados. Há milhares de anos contam-se histórias de arco-íris saindo de bocas, de palavras criadoras, de objetos navegando em infinitas águas tranquilas e sobre o nosso planeta plano. São inúmeras histórias, nenhuma, entretanto, me coloca diante de uma explicação razoável para o surgimento da luz e do brilho das estrelas e também dos animais luminosos. Sinto grande atração pela mitologia hindu, mas por sua beleza narrativa e não por seus aspectos morais e éticos, muito menos os científicos. Tudo o que sei é que na busca pela verdade encontro apenas mais e mais incerteza, então “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”. Estão dispensados. – Terminava sua aula o professor mais antigo da instituição e cansado ajuntava suas coisas, uma menina, uma bela moça, com seus vigorosos dezessete anos, aproximou-se do docente e sem autorização deu-lhe um beijo na face. Entregou-lhe um panfleto, o professor estranhou, em infinitos três segundos pensou na sua postura ética sempre usada, pensou na liberdade que nunca houvera dado, no seu imensurável conceito na instituição e o que esse gesto poderia acarretar diante das pessoas que nunca se aproximaram dele por um medo reverente, mas acatou calado, dizendo apenas “até a próxima aula”. Seus olhos quase estavam fechando de sono e de seus lábios as palavras saíram num tom mais que monótono, quase num tom de quem falara dormindo, a menina sabia do cansaço de seu mestre, o que a motivara a prestar-lhe tal homenagem e o que tornava o gesto impossível de arrependimentos, foi para casa em silêncio, mas satisfeita, cumprira sua missão.
Friederich finalmente chegava à sua casa, apenas três degraus para subir, abriu a porta, limpou os pés no pano de chão, disse olá esperando que alguém escutasse, ao mesmo tempo em que sabia que seria impossível, largou suas coisas no chão da sala e sentou-se no maior sofá do ambiente, fechou os olhos e apertou botões dos controles, que sabia, estava logo ali ao seu lado. Brahms ecoava no cômodo silencioso e Friederich navegava nas águas oníricas de seu inconsciente.

***

Num grande templo hindu uma flor de lótus se abria sobre as águas verdejantes e tranquilas de um lago de extensão imperceptível. O sol sobre o templo, o lago e o homem era tênue, manso e suave, sua luz era tranquilizadora, aquele cenário era, porque poderia ser, perfeito. Não havia nada que pudesse perturbar, tirar a paz ou atormentar, tudo estava exatamente como deveria estar, da melhor maneira possível.
Um pássaro de belo canto revoava sobre a cabeça de Friederich, até decidir pousar sobre um arbusto repleto de flores amarelas, aquele pássaro era mitológico, era melhor que a fênix, pois não remetia a fogo, era melhor que o rouxinol do imperador, pois não lembrava nada real e era melhor do que tudo o que existia, pois existia apenas inconscientemente.
No lago, peixes dançavam alegremente à melodia cantada pelo pássaro, peixes de todas as cores, peixes brilhantes, peixes que traziam luzes em suas escamas, peixes magníficos.
Friederich entra no templo e lê pergaminhos e mais pergaminhos deixados lá, não encontra nenhuma dificuldade na tradução de seus signos, todos lhes são revelados, as narrativas encontradas ali são legítimas, originais, perfeitas e nunca, nunca antes conhecidas – espaço para a realidade, infeliz essencial: ele tem de admitir que, em seus estudos, jamais havia encontrado algo novo, o que torna esses escritos preciosos, na mesma proporção em que são dissipadores de algo tomado como verdade por muito tempo – essas histórias levam o leitor a navegar entre galáxias, estrelas, luzes e arcos-íris siderais, o templo se tornou uma minúscula partícula indefinida, o que importa agora é muito maior, é muito mais importante, são os lugares desconhecidos do universos, são os planetas terras inexplorados, são os martes com vida, são os sóis verdes e azuis.
Uma maravilhosa sensação situa Friederich novamente no templo, é algo úmido, gélido, mas magnífico, uma sensação tátil. Ele está, agora, próximo de uma bela ruiva, uma linda bailarina, jovem e simpática, ele desperta.

***

Diante dele está Beatriz, sua grande paixão, hoje já não é mais tão jovem, mas o amor que Friederich sente por ela ainda é o mesmo... em infinitos dois segundos... lembra-se de seus primeiros gestos de afeto:

***

Após o acender de luzes, um Friederich de quatorze anos pisca para uma bailarina ruivinha de doze anos no palco, ela ajeita seus bastos cabelos, prende-os graciosamente sob um charmoso coque, claro que depois de jogá-los para lá e para cá, um sorriso discreto sai de seus finos e vermelhos lábios e seus olhos verdes piscam aleatoriamente e involuntariamente, num imensurável charme infantil. De repente, Friederich leva Beatriz para o ginásio em sua bicicleta vermelha, à moda de “A vida é bela”, agora para a faculdade de moto, depois para o trabalho de Siena prata.

***

Friederich recebe muito bem o beijo amoroso dos lábios que o despertou. Pega o panfleto de seu bolso:
- Vamos ver uma apresentação de balé na Igreja Cristã de São Matheus? – Beatriz animadíssima arruma-se e após três horas ambos saem, o coração de Friederich já não é mais o mesmo, percebe-se velho e passível de sentimentos, seus discursos de “Carpe Diem” aos poucos são esquecidos e o que resta, agora, é uma lacuna intelectual, que precisa urgentemente ser preenchida por pergaminhos antigos com informações novas, nada poderia fazer Beatriz mais feliz.


Paulo Augustus

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