Elizabeth
A lua ia alta no céu, Elizabeth observava
calada. Passaram-se segundos, minutos e horas, a lua foi encoberta por um denso
cobertor de nuvens negras e ela continuava lá, observando, as vezes em pé, as
vezes sentada e as vezes deitada no chão, mas lá, observando.
Uma, duas, três e mais lágrimas escorreram e
escorriam de seus olhos sobre sua face, o mundo girava, naquele momento, ao seu
redor. Em seu interior sabia que deveria entrar para casa, que logo começaria a
chover e amanheceria, mas recusou-se, ficou lá, estagnada, como antes e
posteriormente, por muito tempo. Não fazia ideia de quanto tempo já havia
passado ali, sabia que já era madrugada, e te confesso amigo leitor, já era
três da madrugada e mais alguns minutos. Continuava lá; as primeiras gotas da
chuva prometida começaram a despencar do céu, Elizabeth começou a sentir frio,
mas permaneceu lá, pouco a pouco ficava molhada, seus cabelos negros e
cacheados destilavam perfume, ensopados com a límpida água. A camiseta que
levava no corpo ficava encharcada e não bastasse, era de algodão, ficando
transparente por causa do fenômeno, arrancou-lha do corpo, deixando à mostra a
perfeição com que fora esculpida, seu busto estava nu e não havia problema
algum, ela estava só. Conforme as gostas da chuva escorriam por seu corpo: de
seus ombros, por seus pálidos e carentes seios, até a sua intimidade coberta
por uma longa saia jeans, sua beleza ficava mais evidente. Lembro-me de seus
lábios, também estavam alvos como seu corpo, o que se destacava naquele
emaranhado de branquidão eram seus negros e profundos olhos, que não cessavam
de chorar, não temia a gripe, ou a febre e nem a morte, permanecia lá, nua,
chorosa e bela.
No céu, lá no alto, os anjos a observavam,
queriam protegê-la, mas ela não os permitia, queriam tocá-la, despertá-la
daquele torpor, mas ela não permitia, do jeito que ficara, permanecera.
Já desconhecia seu próprio nome, sua
existência e até o motivo pelo qual chorava. Suas memórias eram uma confusão em
sua mente, lembrou-se dum balanço de pneu numa árvore em sua infância, direto
para o primeiro beijo na adolescência, uma aliança de ouro no amadurecimento,
um filho na mesma época, um carro, um acidente e agora.
No céu, lá no alto, a lua se escondia daquele
cenário de tristeza, o sol assumia seu posto e nessa ocasião substituía a lua.
Talvez por causa do final do verão, talvez por causa da tristeza daquela manhã,
o sol se recusava a brilhar, seus raios não passavam o manto escuro das nuvens
e nem tampouco tinham o poder suficiente para acalentar e secar aquele corpo
que aos poucos padecia no chão, nu e belo.
A chuva, numa tentativa bondosa de amenizar a
dor das almas, continuava caindo, impedia que pessoas saíssem de casa para
socorrer aquela madona mais que pesarosa, mas era sua companhia.
Um sino distante soou, um templo gótico
anunciou o meio-dia que era enganado pela escuridão daquele cinco de abril
solitário e frio, e Elizabeth deixava sua bela estátua morta no chão, enquanto
ascendia aos céus, acolhida por milhões de anjos que enfim puderam-na atender.
Gérson Elias Rachid de Góes