Um dia!
Lá estavam eles, sorridentes, debaixo do sol tropical, tomando seus
sorvetes mistos de creme com chocolate. Peter e Karmen, dois idosos no parque
Ibirapuera.
Peter olhava para os patos no lago e para os olhos de seu amor mais
recente. Mal podia acreditar que aos quarenta e cinco do segundo tempo de sua
vida encontraria alguém com quem pudesse compartilhar seus segredos e desejos,
mas ali estava, Karmen, excelsa para ele, bela, perfeita e quase soberana, não
sabia nem como elogiá-la, não sabia como agradá-la, mas sabia que tentaria,
tentaria nem que isso fizesse com que ele perdesse todas as suas energias, que
já não eram tantas.
Primeiro pensou e decidiu ser sincero, depois falou:
- Karmen, já faz muito tempo que não me relaciono, não sei mais como
agradar uma mulher, como elogiá-la, mas sei que tenho que fazê-lo, Karmen, nos
conhecemos há três semanas, isso não é um mês, mas já estou aficionado por
você, não consigo mais pensar meus dias, que já não são muitos, sem você. Você
é tudo que eu quero. Quer casar comigo? – Ele espera a resposta, apreensivo,
temeroso, ansioso, mas espera. Suas mãos tremem, suas pernas falham, de seus
olhos parece que vão escorrer lágrimas, ele espera.
Karmen fita profundamente os olhos de Peter, sorri singela, mas não
responde, lambe o sorvete mais um pouco, faz um suspense, um drama e um terror,
move os olhos momentaneamente para o outro lado, para baixo, para o sorvete e
olha novamente para Peter:
- Seus filhos vão me matar. – E sorri.
Peter não entende completamente a resposta, isso é um sim ou um não? Não
sabe ao certo, mas essa alegria, esse jeito de ser da Karmen, esse suspense
todo, é isso que ele quer, ela continua:
- Mas é claro que sim! Vamos morar aonde? No meu ou no seu apartamento?
- Por que não vendemos os dois e compramos uma casa? O que acha?
- É uma ótima opção! – Olha para o céu, torna para Peter e muda de
assunto. – Vou ter que parar de dar aula para seus filhos, eles nunca mais me
respeitarão.
- Deixa disso Karmen, eles te amam e são tão aficionados por você quanto
eu.
- Você diz isso porque não é você que tem de falar aos seus alunos mais
dedicados que depois de uma reunião de pais e mestres começou a sair com o pai
deles e que agora vão se casar! – Diz Karmen, como quem quer dificultar as
coisas, com um sorriso discreto de canto da boca.
- Essa é a parte mais fácil, garanto que muito mais fácil do que
corrigir uma série de exercícios com letra ilegível. – Com ares de quem
encontra qualquer outra dificuldade, menos a mencionada.
- Isso com certeza. – É obrigada a concordar, com outro sorriso.
***
Passam-se três ou quatro estações.
Sob um sol tímido e ao lado de um lago gélido dois caixões são
homenageados, os patos cantavam junto com o coral Assembleiano; os corpos
sorridentes e completamente imóveis ficavam na lembrança.
Nunca houve nem haverá casal mais feliz do que dois jovens na terceira
idade que se descobrem feitos um para o outro apesar do tempo em que eram
preenchidos por outras pessoas também perfeitas.
Gérson Elias Rachid de Góes.
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