sexta-feira, 4 de abril de 2014

Romance para nós.

Um dia!

Lá estavam eles, sorridentes, debaixo do sol tropical, tomando seus sorvetes mistos de creme com chocolate. Peter e Karmen, dois idosos no parque Ibirapuera.
Peter olhava para os patos no lago e para os olhos de seu amor mais recente. Mal podia acreditar que aos quarenta e cinco do segundo tempo de sua vida encontraria alguém com quem pudesse compartilhar seus segredos e desejos, mas ali estava, Karmen, excelsa para ele, bela, perfeita e quase soberana, não sabia nem como elogiá-la, não sabia como agradá-la, mas sabia que tentaria, tentaria nem que isso fizesse com que ele perdesse todas as suas energias, que já não eram tantas.
Primeiro pensou e decidiu ser sincero, depois falou:
- Karmen, já faz muito tempo que não me relaciono, não sei mais como agradar uma mulher, como elogiá-la, mas sei que tenho que fazê-lo, Karmen, nos conhecemos há três semanas, isso não é um mês, mas já estou aficionado por você, não consigo mais pensar meus dias, que já não são muitos, sem você. Você é tudo que eu quero. Quer casar comigo? – Ele espera a resposta, apreensivo, temeroso, ansioso, mas espera. Suas mãos tremem, suas pernas falham, de seus olhos parece que vão escorrer lágrimas, ele espera.
Karmen fita profundamente os olhos de Peter, sorri singela, mas não responde, lambe o sorvete mais um pouco, faz um suspense, um drama e um terror, move os olhos momentaneamente para o outro lado, para baixo, para o sorvete e olha novamente para Peter:
- Seus filhos vão me matar. – E sorri.
Peter não entende completamente a resposta, isso é um sim ou um não? Não sabe ao certo, mas essa alegria, esse jeito de ser da Karmen, esse suspense todo, é isso que ele quer, ela continua:
- Mas é claro que sim! Vamos morar aonde? No meu ou no seu apartamento?
- Por que não vendemos os dois e compramos uma casa? O que acha?
- É uma ótima opção! – Olha para o céu, torna para Peter e muda de assunto. – Vou ter que parar de dar aula para seus filhos, eles nunca mais me respeitarão.
- Deixa disso Karmen, eles te amam e são tão aficionados por você quanto eu.
- Você diz isso porque não é você que tem de falar aos seus alunos mais dedicados que depois de uma reunião de pais e mestres começou a sair com o pai deles e que agora vão se casar! – Diz Karmen, como quem quer dificultar as coisas, com um sorriso discreto de canto da boca.
- Essa é a parte mais fácil, garanto que muito mais fácil do que corrigir uma série de exercícios com letra ilegível. – Com ares de quem encontra qualquer outra dificuldade, menos a mencionada.
- Isso com certeza. – É obrigada a concordar, com outro sorriso.

***

Passam-se três ou quatro estações.
Sob um sol tímido e ao lado de um lago gélido dois caixões são homenageados, os patos cantavam junto com o coral Assembleiano; os corpos sorridentes e completamente imóveis ficavam na lembrança.
Nunca houve nem haverá casal mais feliz do que dois jovens na terceira idade que se descobrem feitos um para o outro apesar do tempo em que eram preenchidos por outras pessoas também perfeitas.





Gérson Elias Rachid de Góes.

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