sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sara

São quatro e meia da manhã, na estação o clima está frio e o lugar coberto por névoa, desde os trilhos até o topo do mundo. Hoje ela acordou mais cedo do que nunca, às quatro já estava de pé, determinada.
Sara chorava sentada no banco, esperando o trem, sua partida era mais difícil do que imaginara.
Ela queria sair, conhecer outros lugares, queria viajar, descobrir, encontrar, mas não o faria por consentimento, nem por ter a confiança de alguém, teria de fazê-lo de modo inesperado, desordenado, inusitado, até mesmo rebelde, mas teria de fazer e fez. Lá estava, quatro e meia, sem malas, sem avisos, sem prévias, estava lá e o trem já apontava no horizonte e apitava seu chegar.
Sara se levantou do banco, preparando-se para adentrar o trem, ouve ao longe uma voz familiar: “Sara, que o Senhor te acompanhe e vê se me manda notícias”. Olha para trás e reconhece a silhueta do seu velho, compreensivo e amado pai; entende o recado e é nessa parte que chora mais.
O trem está vazio, perfeito para a leitura dos livros que trouxe consigo, seus únicos acompanhantes.
São três: “O retrato de Dorian Gray”; “David Coperfield” e “Os miseráveis”.
Sara abre o “Retrato de Dorian Gray” e torna a ler a partir do capítulo em que havia parado, ou melhor, tenta ler: Dorian viaja pelo mundo e começa a colecionar instrumentos de muitas épocas e lugares.
Por mais que tenha sido difícil e lágrimas rolem por seu rosto, Sara sente-se realizada, está fazendo o que sempre sonhou e esta parte do livro a motiva ainda mais.
Peter, seu pai, ao despedir-se dela na estação, mesmo à distância, reforça a mensagem com a qual sempre a repreendera: “Não será fácil, você vai sozinha, terá que se sustentar sozinha e nos momentos mais difíceis de dor não haverá quem a console, não te autorizo a partir, mas se realmente quiser ir quem te impedirá?”.
Passam-se três estações, mas do livro, apenas três linhas, as lágrimas em seus olhos e a confusão de pensamentos em sua cabeça são fatores que muito corroboram para que não leia.
Tenta contentar-se por partir, mas a cada estação fica mais difícil, não se arrepende de ter saído, mas não consegue entender tudo ao certo.
Divaga de repente em algumas lembranças, seu pensamento vai de sua primeira Barbie até agora, naquele trem, sentido “fim do mundo”.
(...) “Fim do mundo”... Lembra-se de “As Crônicas de Nárnia”: “O princípio do Fim do Mundo” e “Maravilhas do Mar Derradeiro”.
Deveria ter trazido o livro, sente que esse é o que mais lhe fará falta, assim que passar por uma livraria o comprará, comprará também uma bíblia; por que não trouxe a sua? Deveria ter trazido. Por que saiu daquele jeito? Apressadamente e às escuras. Deveria ter planejado melhor essa saída que sempre fora tão almejada. Mas agora já está na rua e tudo o que tem de fazer é aproveitar o momento, mas por que não consegue, por que essas lágrimas insistem em cair?
“Estação terminal...”
“Malditas lágrimas, parem de cair!” – Pensa, e se dá conta, sozinha.
Vê um mendigo. Dá-lhe uns trocados e continua chorando. Entra no ônibus, não sabe bem ao certo qual, mas tem a certeza que é aquele que tem de pegar. E vai.







Pretendo continuar esse conto! Mas, decidi divulgá-lo mesmo sem concluí-lo!

Paulo Augustus.

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