São
quatro e meia da manhã, na estação o clima está frio e o lugar coberto por
névoa, desde os trilhos até o topo do mundo. Hoje ela acordou mais cedo do que
nunca, às quatro já estava de pé, determinada.
Sara
chorava sentada no banco, esperando o trem, sua partida era mais difícil do que
imaginara.
Ela
queria sair, conhecer outros lugares, queria viajar, descobrir, encontrar, mas
não o faria por consentimento, nem por ter a confiança de alguém, teria de
fazê-lo de modo inesperado, desordenado, inusitado, até mesmo rebelde, mas
teria de fazer e fez. Lá estava, quatro e meia, sem malas, sem avisos, sem
prévias, estava lá e o trem já apontava no horizonte e apitava seu chegar.
Sara
se levantou do banco, preparando-se para adentrar o trem, ouve ao longe uma voz
familiar: “Sara, que o Senhor te acompanhe e vê se me manda notícias”. Olha
para trás e reconhece a silhueta do seu velho, compreensivo e amado pai;
entende o recado e é nessa parte que chora mais.
O
trem está vazio, perfeito para a leitura dos livros que trouxe consigo, seus
únicos acompanhantes.
São
três: “O retrato de Dorian Gray”; “David Coperfield” e “Os miseráveis”.
Sara
abre o “Retrato de Dorian Gray” e torna a ler a partir do capítulo em que havia
parado, ou melhor, tenta ler: Dorian viaja pelo mundo e começa a colecionar
instrumentos de muitas épocas e lugares.
Por
mais que tenha sido difícil e lágrimas rolem por seu rosto, Sara sente-se
realizada, está fazendo o que sempre sonhou e esta parte do livro a motiva
ainda mais.
Peter,
seu pai, ao despedir-se dela na estação, mesmo à distância, reforça a mensagem
com a qual sempre a repreendera: “Não será fácil, você vai sozinha, terá que se
sustentar sozinha e nos momentos mais difíceis de dor não haverá quem a
console, não te autorizo a partir, mas se realmente quiser ir quem te
impedirá?”.
Passam-se
três estações, mas do livro, apenas três linhas, as lágrimas em seus olhos e a
confusão de pensamentos em sua cabeça são fatores que muito corroboram para que
não leia.
Tenta
contentar-se por partir, mas a cada estação fica mais difícil, não se arrepende
de ter saído, mas não consegue entender tudo ao certo.
Divaga
de repente em algumas lembranças, seu pensamento vai de sua primeira Barbie até
agora, naquele trem, sentido “fim do mundo”.
(...)
“Fim do mundo”... Lembra-se de “As Crônicas de Nárnia”: “O princípio do Fim do
Mundo” e “Maravilhas do Mar Derradeiro”.
Deveria
ter trazido o livro, sente que esse é o que mais lhe fará falta, assim que
passar por uma livraria o comprará, comprará também uma bíblia; por que não
trouxe a sua? Deveria ter trazido. Por que saiu daquele jeito? Apressadamente e
às escuras. Deveria ter planejado melhor essa saída que sempre fora tão
almejada. Mas agora já está na rua e tudo o que tem de fazer é aproveitar o
momento, mas por que não consegue, por que essas lágrimas insistem em cair?
“Estação
terminal...”
“Malditas
lágrimas, parem de cair!” – Pensa, e se dá conta, sozinha.
Vê
um mendigo. Dá-lhe uns trocados e continua chorando. Entra no ônibus, não sabe
bem ao certo qual, mas tem a certeza que é aquele que tem de pegar. E vai.
Pretendo
continuar esse conto! Mas, decidi divulgá-lo mesmo sem concluí-lo!
Paulo
Augustus.