segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Para uma Pessoa Especial

Jota Gê

O céu fica escuro lá fora e uma forte garoa rompe o silêncio e a sequidão.

***

- Tive um sonho. Estranho como todos os outros, em alguns momentos belo, tenebroso, pesaroso, complexo e paradoxal. Como todos os outros. No começo, eu me vejo sentado em uma poltrona reclinável de couro preto, como a que tenho em minha sala, a seguir a poltrona começa a flutuar a uns doze centímetros do chão, depois uns vinte e por fim uns cinquenta e três. Flutuando, ela me leva a um campo florido, vejo lírios de várias cores, margaridas brancas e amarelas também, mini-rosas vermelhas, brancas e rosas rosas e vejo lantanas, éricas, onze horas e dentes de leão. Em um lugar aonde a relva é baixa, limpa e sem flores, a poltrona pousa. Uma manada de cavalos, brancos, pretos e malhados, passam correndo do norte para o sul aos lados do acento, em determinado momento, lá no sul, às minhas costas, uma nuvem pousa no solo, fazendo uma rampa pela qual os animais sobem, leves como o vento. Tudo fica escuro e trovões começam a ribombar nos quatro cantos da terra, de repente, os trovões formam uma orquestra com os tímpanos e tambores de Beethoven, Mozart e Bach, os céus ainda escuros começam a se mover no ritmo das sinfonias e uma horda de corvos e borboletas negras que estava grudada no céu começa a fazer rasantes, o que fez parecer que o céu se mexia. Todos esses animais pousam nos meus pés, mas o céu continua escuro e em movimento.
A poltrona começa a girar frenética e se transmuta para uma enorme pensão, eu estou do lado de fora do casarão, tudo nele é feito de madeira, totalmente escura como o ébano, a casa é quase completamente negra a não ser pelos inúmeros vidros que formam as janelas e os detalhes decorativos da fachada em branco ou verde, abro a porta frontal e entro, deparo-me com uma imensa piscina, pulo na água gélida e mergulho, uma gigantesca baleia, um Kraken, me carrega água abaixo e me aporta à entrada de uma caverna, o sol brilha a cegar vista, entro no ambiente, vejo um baú de ouro fino, cravejado por esmeraldas e águas marinhas, ao abrir o baú maior, encontro um pequeno, uma caixinha de madeira envelhecida, quase apodrecida, quando abro a caixinha e estou, de repente, sentado na minha poltrona em casa e você me serve, em uma bandeja, biscoitos caseiros de baunilha e um café fumegante. – Ela olha-o nos olhos, com os olhares entrecruzados por um minuto ou mais, um beijo se é dado num jogo interior de emoções e sensações.

***

Wagner desperta incerto, três da manhã e a solidão. Demasiado emocionado respira ofegante. Abre a janela, nenhum movimento na rua lá em baixo, Órion saúda-lhe brilhante.








Paulo Augustus





Esse conto foi criado para, e inspirado em, uma pessoa muito legal, que tem se mostrado sincera, otimista e uma pessoa completa e satisfeita consigo! A Você!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

De brincadeiras com palavras e nomes:

Amandas

Amandas de verde,
                        de azul,
            de amarelo,
                            de preto,
     de rosa choque.

Amandas sorrindo,
            cantando,
correndo,
       brincando,
lendo.

Amandas alegres,
            simpáticas,
   empáticas,
            generosas,
sinceras.

Amandas de vários tamanhos,
            de vários jeitos,
     de todos os tipos,
estilos,
       de todos os gostos.

Quem não tem uma Amanda,
            ou jamais teve?
Todos temos ou tivemos,
            ou já avistamos,
                        afinal são Amandas.


Gérson Elias R. de Góes


terça-feira, 28 de outubro de 2014

À Vida

Ensaio sobre a vida

São infinitos os ensaios e as tentativas que almejam
Explicar o insondável inescrutável imensurável
Mistério que cerca e rodeia a origem da vida

Floresce, fecunda, forma, transforma
Rebenta, rompe, cresce, aparece
Novas formas vivas vingando paradoxalmente inanimando
Inanimando na mesma proporção
Em que sutilmente crescem

Talvez um sopro, suspiro, sucinto, suave exale
A vida contida em indescritíveis minúsculas partículas novas
Talvez de um sopro suave e sucinto
Suscite o sonoro sentido de ser
Sutilmente extinto

Infinitos mistério rodeiam e cercam e orbitam
O núcleo esférico celular atômico particular
Da presença singular do coletivo respirar de vida
Subjetiva e inquestionável, pensada finita

O que se faz
O que se fala
O que se almeja
Como se explica
Como se aplica
Como se afirma
O sentido
Ou os sentidos
Da vida?

A vida floresce
Cresce
Fecunda
Rebenta e rompe
Os limites impostos
Pelos mitos produzidos da incerteza
Do ser e do existir

O que se sabe
É que se cresce na mesma proporção em que se esmorece

E se nada do que rompe morre
Antes tudo o que se forma se transforma
O que se faz do que se vai?
Almeja-se e aguarda
Ou se preserva a mágoa
Da incerteza de vir a existir no porvir?

Muitos outrora perguntaram
E outros virão a questionar
Todos de alguma forma
Querem entender e poder explicar
O mistério infinito, imensurável e inescrutável
Da origem, do surgimento
Daquilo que sem explicação e sem mediação
Recebe o nome, o jargão
De vida em sanção

O que se tem e o que se sabe
É pouco e limitado
Todo mito tem origem no fato

O universo, se flutua,
Navega em palavras
Nada, vazio, vago
Explosão, exalação, emanação
Órbitas, galáxias, estrelas
Brilham, alumiam
No pretérito do futuro

Aquilo que aquece
Miscigena e difunde
Floresce, cresce, aparece,
Rompe os limites dos mitos
Daquilo que se busca entender

Rebenta, rompe, quebra, flora e floresce
Nasce, cresce, cria, aumenta e multiplica
Nova vida faz e faço e fazemos
Nasce, cresce e rompe
Floresce fecunda nova

São imensuráveis, inescrutáveis, insondáveis
As profundezas dos mistérios da vida
Do vazio vago abissal
Um suspiro sutil, um singelo sopro
Fazer surgir seres que se reconhecem sendo
Crescentes na mesma proporção em que são seres em constante extinção

Uma sinfonia, uma sonata, um sentimento
Inexplicável sensação de ser, fazer, crescer e... transformar-se
No imenso universo composto
De singelos, sucintos, simples, suspiros, sopros, suaves, seres, serenos, sublimes...
Brilhos, luzes, vagas, plataformas rasas, planas,
água,  fogo, ar, terra e plantas

Planos, sonhos, imagens, artes, musicas e palavras
Vida em seu misterioso modo de se fazer ser
Sempre sublime suprema e imensurável plenitude

Virtude, vicissitudes,
verdade e mito na mesma proporção
Ser, crescer, fazer,
Na mesma medida

Transforma e volta
Floresce, fecunda, forma e transforma e acaba
Na mesma medida em que volta



 Assinado por:

Zacharias Rhangel de Saint’Zadckiel



Em se tratando de Brasil, ficaria complicado dizer "após um longo e tenebroso inverno...", haja vista que no Brasil o inverno não é tão frio, não é tão longo e nem tampouco é tenebroso, o que nos permite realizar perfeitamente qualquer tarefa, assim sendo... após alguma ausência produzi estes versos ao ler sobre o Simbolismo em Portugal, representado por Eugênio de Castro e também ao ouvir "O Pássaro de Fogo e Sagração da Primavera" de Igor Stravinsky... é claro que a animação da Disney "Fantasia 2000" relacionada à primeira música mencionada, tem mais influência na escolha do tema, todavia... é a música que me inspirou. Estes versos pretendem ser Simbolistas... assim como o poeta que o escreveu!

Nota: É evidente que o título "Ensaio..." é empregado poeticamente... haja vista que não sou nenhum filósofo!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sobre as manifestações e o Cristianismo

Sobre as manifestações e o cristianismo

Quando Jesus foi interrogado sobre os impostos ele afirmou veementemente que se deve dar ao governo o que ao governo pertence e a Deus o que é próprio de Deus. (Mt. 22: 15 – 22; Mc. 12: 13 – 17; Lc. 20: 20 – 26)
Quando a Pedro foi revelado pelo Espírito Santo que Jesus é O Escolhido do Pai, por Jesus foi revelado aos seus discípulos o processo de sofrimento pelo qual deveria passar. (Mt. 16: 13 – 28; Mc. 8: 27 – 31; Lc. 9: 18 – 27)
Quando as Escrituras se cumpriram e Jesus foi levado preso pelos soldados romanos alguns dos discípulos quiseram que Jesus fizesse algo, Jesus não o fez. (Mt. 26: 47 – 56; Mc. 14: 43 – 50; Lc. 22: 47 – 53; Jo. 18: 1 – 11)
Existe um fator em comum em todas essas situações, em todas elas Jesus enfatizou a Vinda do Reino de Deus, a chegada do Reino dos Céus, o Final desse sistema de coisas.
Se me perguntarem:
- Você é contra as manifestações?
Respondo:
- Não!
Se me perguntarem:
- Você está satisfeito com o nosso governo?
Respondo:
-Não!
Se me perguntarem:
- Você participaria das manifestações?
Respondo:
- Não!
As manifestações demonstram o grau de insatisfação do povo em relação aos representantes do mesmo povo, representantes que se omitem e se esquecem das suas verdadeiras responsabilidades. Partilho da mesma busca por justiça plena. Mas, utopia por utopia, fico com a espera pacífica e justa da única utopia que se perpetuará a ponto de nunca deixar de ser utopia na mesma medida em que não carecerá de outra utopia.
Se me perguntarem:
- Você ainda aguarda o Reino dos céus?
Eu direi incansavelmente:
- Sim! Pacificamente!




Gostaria de poder dizer que a pessoalidade com que este texto foi produzido é fruto de um grau elevado de formação e conhecimento, lamento dizer que é o extremo oposto disso.




Gérson Elias Rachid de Góes.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Inspirações e Devaneios

De mim mesmo:

Lá estava eu, andando, como sempre, refletindo sobre a vida e o mundo, reparei:
Como é complexo e belo o sistema de organização desse planeta, chega a ser, na verdade, tenebroso. Mas, ainda assim, belo.
Uns dão-se por completo e são devorados.
Outros andam sozinhos e solitários, querendo dar-se sem ter quem os queiram.
Outros se dão e de nada são aproveitados.

Quem entenderá este sistema e quem o explicará?

Mortais criaturas somos, essa é a beleza e a razão da vida: o seu fim.
Quem entenderá?







Gérson Elias Rachid de Góes

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sara

São quatro e meia da manhã, na estação o clima está frio e o lugar coberto por névoa, desde os trilhos até o topo do mundo. Hoje ela acordou mais cedo do que nunca, às quatro já estava de pé, determinada.
Sara chorava sentada no banco, esperando o trem, sua partida era mais difícil do que imaginara.
Ela queria sair, conhecer outros lugares, queria viajar, descobrir, encontrar, mas não o faria por consentimento, nem por ter a confiança de alguém, teria de fazê-lo de modo inesperado, desordenado, inusitado, até mesmo rebelde, mas teria de fazer e fez. Lá estava, quatro e meia, sem malas, sem avisos, sem prévias, estava lá e o trem já apontava no horizonte e apitava seu chegar.
Sara se levantou do banco, preparando-se para adentrar o trem, ouve ao longe uma voz familiar: “Sara, que o Senhor te acompanhe e vê se me manda notícias”. Olha para trás e reconhece a silhueta do seu velho, compreensivo e amado pai; entende o recado e é nessa parte que chora mais.
O trem está vazio, perfeito para a leitura dos livros que trouxe consigo, seus únicos acompanhantes.
São três: “O retrato de Dorian Gray”; “David Coperfield” e “Os miseráveis”.
Sara abre o “Retrato de Dorian Gray” e torna a ler a partir do capítulo em que havia parado, ou melhor, tenta ler: Dorian viaja pelo mundo e começa a colecionar instrumentos de muitas épocas e lugares.
Por mais que tenha sido difícil e lágrimas rolem por seu rosto, Sara sente-se realizada, está fazendo o que sempre sonhou e esta parte do livro a motiva ainda mais.
Peter, seu pai, ao despedir-se dela na estação, mesmo à distância, reforça a mensagem com a qual sempre a repreendera: “Não será fácil, você vai sozinha, terá que se sustentar sozinha e nos momentos mais difíceis de dor não haverá quem a console, não te autorizo a partir, mas se realmente quiser ir quem te impedirá?”.
Passam-se três estações, mas do livro, apenas três linhas, as lágrimas em seus olhos e a confusão de pensamentos em sua cabeça são fatores que muito corroboram para que não leia.
Tenta contentar-se por partir, mas a cada estação fica mais difícil, não se arrepende de ter saído, mas não consegue entender tudo ao certo.
Divaga de repente em algumas lembranças, seu pensamento vai de sua primeira Barbie até agora, naquele trem, sentido “fim do mundo”.
(...) “Fim do mundo”... Lembra-se de “As Crônicas de Nárnia”: “O princípio do Fim do Mundo” e “Maravilhas do Mar Derradeiro”.
Deveria ter trazido o livro, sente que esse é o que mais lhe fará falta, assim que passar por uma livraria o comprará, comprará também uma bíblia; por que não trouxe a sua? Deveria ter trazido. Por que saiu daquele jeito? Apressadamente e às escuras. Deveria ter planejado melhor essa saída que sempre fora tão almejada. Mas agora já está na rua e tudo o que tem de fazer é aproveitar o momento, mas por que não consegue, por que essas lágrimas insistem em cair?
“Estação terminal...”
“Malditas lágrimas, parem de cair!” – Pensa, e se dá conta, sozinha.
Vê um mendigo. Dá-lhe uns trocados e continua chorando. Entra no ônibus, não sabe bem ao certo qual, mas tem a certeza que é aquele que tem de pegar. E vai.







Pretendo continuar esse conto! Mas, decidi divulgá-lo mesmo sem concluí-lo!

Paulo Augustus.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Romance para nós.

Um dia!

Lá estavam eles, sorridentes, debaixo do sol tropical, tomando seus sorvetes mistos de creme com chocolate. Peter e Karmen, dois idosos no parque Ibirapuera.
Peter olhava para os patos no lago e para os olhos de seu amor mais recente. Mal podia acreditar que aos quarenta e cinco do segundo tempo de sua vida encontraria alguém com quem pudesse compartilhar seus segredos e desejos, mas ali estava, Karmen, excelsa para ele, bela, perfeita e quase soberana, não sabia nem como elogiá-la, não sabia como agradá-la, mas sabia que tentaria, tentaria nem que isso fizesse com que ele perdesse todas as suas energias, que já não eram tantas.
Primeiro pensou e decidiu ser sincero, depois falou:
- Karmen, já faz muito tempo que não me relaciono, não sei mais como agradar uma mulher, como elogiá-la, mas sei que tenho que fazê-lo, Karmen, nos conhecemos há três semanas, isso não é um mês, mas já estou aficionado por você, não consigo mais pensar meus dias, que já não são muitos, sem você. Você é tudo que eu quero. Quer casar comigo? – Ele espera a resposta, apreensivo, temeroso, ansioso, mas espera. Suas mãos tremem, suas pernas falham, de seus olhos parece que vão escorrer lágrimas, ele espera.
Karmen fita profundamente os olhos de Peter, sorri singela, mas não responde, lambe o sorvete mais um pouco, faz um suspense, um drama e um terror, move os olhos momentaneamente para o outro lado, para baixo, para o sorvete e olha novamente para Peter:
- Seus filhos vão me matar. – E sorri.
Peter não entende completamente a resposta, isso é um sim ou um não? Não sabe ao certo, mas essa alegria, esse jeito de ser da Karmen, esse suspense todo, é isso que ele quer, ela continua:
- Mas é claro que sim! Vamos morar aonde? No meu ou no seu apartamento?
- Por que não vendemos os dois e compramos uma casa? O que acha?
- É uma ótima opção! – Olha para o céu, torna para Peter e muda de assunto. – Vou ter que parar de dar aula para seus filhos, eles nunca mais me respeitarão.
- Deixa disso Karmen, eles te amam e são tão aficionados por você quanto eu.
- Você diz isso porque não é você que tem de falar aos seus alunos mais dedicados que depois de uma reunião de pais e mestres começou a sair com o pai deles e que agora vão se casar! – Diz Karmen, como quem quer dificultar as coisas, com um sorriso discreto de canto da boca.
- Essa é a parte mais fácil, garanto que muito mais fácil do que corrigir uma série de exercícios com letra ilegível. – Com ares de quem encontra qualquer outra dificuldade, menos a mencionada.
- Isso com certeza. – É obrigada a concordar, com outro sorriso.

***

Passam-se três ou quatro estações.
Sob um sol tímido e ao lado de um lago gélido dois caixões são homenageados, os patos cantavam junto com o coral Assembleiano; os corpos sorridentes e completamente imóveis ficavam na lembrança.
Nunca houve nem haverá casal mais feliz do que dois jovens na terceira idade que se descobrem feitos um para o outro apesar do tempo em que eram preenchidos por outras pessoas também perfeitas.





Gérson Elias Rachid de Góes.